Hoje parece impossível imaginar a Disneyland sem a icônica Haunted Mansion. A atração se tornou um dos grandes símbolos do parque da Califórnia e ganha ainda mais destaque durante a temporada de Halloween.

Só que, por um longo período, a realidade foi bem diferente: durante anos, havia literalmente uma mansão imponente e praticamente pronta no parque, mas sem nenhuma atração funcionando do lado de dentro.

Entre mudanças de conceito, projetos interrompidos e soluções criadas pelos Imagineers, foram necessários anos para que os famosos 999 fantasmas finalmente recebessem seus primeiros visitantes.

Descubra como um dos projetos mais marcantes da história da Disney transformou uma casa vazia em uma atração conhecida no mundo inteiro.

A casa apareceu antes dos fantasmas

A ideia de criar uma casa mal-assombrada para a Disneyland surgiu ainda durante os primeiros anos de desenvolvimento do parque. Em 1957, Walt Disney encarregou o Imagineer Ken Anderson de desenvolver conceitos para uma atração desse tipo.

Anderson pesquisou diferentes estilos arquitetônicos e criou propostas que mostravam uma residência antiga, decadente e cercada por uma atmosfera ameaçadora.

Walt, porém, tinha outra visão.

Ele não queria uma construção abandonada e malcuidada no meio da Disneyland. A ideia era manter o exterior impecável e deixar que os próprios fantasmas cuidassem da bagunça do lado de dentro.

A fachada que conhecemos hoje foi construída entre 1962 e 1963, em uma área que posteriormente faria parte da New Orleans Square.

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Enquanto a casa estava pronta por fora, um curioso aviso apareceu diante da construção convidando “fantasmas e espíritos inquietos” a procurar uma residência após a morte.

Era uma maneira bastante criativa de alimentar a curiosidade dos visitantes.

O problema era que os fantasmas ainda demorariam alguns anos para chegar.

O problema: o que colocar lá dentro?

Placa da Haunted Mansion na Disneyland durante a história da atração
Placa de entrada da Haunted Mansion na Disneyland. Imagem: Divulgação/Disney

A existência de uma mansão assombrada não significava que os Imagineers já soubessem exatamente o que aconteceria dentro dela.

Ao longo do desenvolvimento, diferentes histórias e experiências foram consideradas.

Algumas propostas envolviam um capitão do mar, outras exploravam histórias trágicas envolvendo uma noiva e também surgiram conceitos bem mais sombrios do que aqueles que acabariam chegando à versão final.

A atração chegou até mesmo a ser pensada como uma experiência em que os visitantes percorreriam a mansão a pé.

Documentos preservados pelos arquivos da Disney mostram que a criação passou por diferentes versões durante um processo que se estendeu por muitos anos.

D23: roteiro antigo e conceitos descartados da Haunted Mansion

A Feira Mundial mudou os planos

O desenvolvimento da Haunted Mansion sofreu uma grande interrupção quando Walt Disney e sua equipe passaram a dedicar esforços à Feira Mundial de Nova York de 1964–1965.

Os Imagineers foram deslocados para projetos criados para diferentes pavilhões do evento, enquanto a mansão permanecia desocupada na Disneyland.

A própria Disney reconhece que as experiências desenvolvidas para a Feira Mundial contribuíram para tecnologias que posteriormente seriam utilizadas na Haunted Mansion.

Foi somente depois desse período que o projeto voltou a avançar em direção à atração que conhecemos atualmente.

Assustadora ou divertida?

Quando o desenvolvimento ganhou força novamente, uma das grandes questões era definir exatamente qual deveria ser o tom da atração.

A mansão deveria realmente assustar os visitantes ou seguir uma abordagem mais divertida?

Diferentes Imagineers contribuíram com sensibilidades bastante distintas.

Haunted Mansion na Disneyland durante o desenvolvimento da atração clássica
A fachada da Haunted Mansion ficou pronta anos antes de a atração abrir ao público. Imagem: Divulgação/Disney

Marc Davis, um dos grandes nomes da animação e do design de atrações da Disney, ficou conhecido por suas ideias envolvendo personagens, situações cômicas e humor visual.

Claude Coats, por outro lado, teve papel importante na criação dos ambientes mais misteriosos, atmosféricos e sombrios.

Já Yale Gracey desenvolveu efeitos e ilusões que ajudariam a transformar os corredores da mansão em um espaço aparentemente habitado pelo sobrenatural.

O resultado não foi simplesmente a vitória de uma dessas abordagens.

A Haunted Mansion encontrou sua identidade justamente na combinação entre mistério, sustos e humor.

O Imagineer X Atencio, responsável pelo roteiro da atração, recordaria anos depois que Walt Disney não queria uma experiência baseada em violência ou horror explícito.

Os fantasmas poderiam assustar os visitantes, mas também estavam ali para… socializar.

E essa ideia aparece diretamente em uma das músicas mais famosas dos parques Disney.

Grim Grinning Ghosts

X Atencio escreveu a letra de Grim Grinning Ghosts, enquanto o Disney Legend Buddy Baker ficou responsável pela música.

Diferentes versões da composição aparecem ao longo da atração.

Ela começa de maneira mais sombria e ganha novas interpretações até chegar à animada celebração no cemitério, quando os fantasmas finalmente saem para “socializar”.

A música acabou se tornando tão associada à Haunted Mansion quanto Madame Leota, os fantasmas caronistas e os próprios Doom Buggies.

D23: entrevista com X Atencio sobre a criação da Haunted Mansion

Os Doom Buggies resolvem outro problema

Além de decidir o que os visitantes veriam, os Imagineers enfrentavam uma questão extremamente prática:

como transportar milhares de pessoas pela mansão de maneira eficiente?

Uma atração percorrida a pé teria limitações importantes de capacidade.

A solução foi utilizar o sistema Omnimover, no qual uma sequência contínua de veículos percorre o cenário enquanto cada unidade pode girar e direcionar o olhar dos visitantes.

Na Haunted Mansion, esses veículos receberam o apelido perfeito:

Doom Buggies.

Eles não servem apenas como meio de transporte.

O movimento de cada carrinho também funciona quase como a câmera de um filme. Em determinados momentos, o veículo gira para direcionar os visitantes exatamente para a cena, personagem ou ilusão que os Imagineers querem revelar.

Assim, tecnologia e narrativa passam a trabalhar juntas.

Os 999 Happy Haunts finalmente recebem visitantes

Doom Buggy da Haunted Mansion com visitantes durante a atração
Doom Buggy leva visitantes pelos ambientes assombrados da Haunted Mansion. Imagem: Divulgação/Disney

Depois de anos de desenvolvimento, a Haunted Mansion finalmente abriu suas portas na Disneyland em 9 de agosto de 1969.

Walt Disney, infelizmente, não viu a atração concluída. Ele havia falecido em dezembro de 1966.

A mansão também se tornou a primeira grande atração da Disneyland inaugurada sem sua supervisão direta durante a fase final do projeto.

Pouco depois da abertura, a Disneyland registrou o que era, naquele momento, seu maior público em um único dia.

A atração iniciava ali uma história que atravessaria décadas.

Disney Parks Blog: abertura da Haunted Mansion em 1969

Como se espalhou a Haunted Mansion pelo mundo

O conceito criado na Califórnia acabou inspirando atrações em diferentes parques Disney, mas nem todas elas simplesmente copiaram a mansão original.

Walt Disney World

A versão do Magic Kingdom, inaugurada em 1971, foi desenvolvida paralelamente à atração da Califórnia.

Como fica na Liberty Square, os Imagineers trocaram a arquitetura inspirada em Nova Orleans por uma mansão de aparência colonial e elementos góticos.

A atração também possui diferenças importantes em relação à versão original.

Tokyo Disneyland

A Haunted Mansion também chegou ao Tokyo Disneyland, onde fica localizada na Fantasyland.

Embora preserve muitos dos elementos clássicos das versões norte-americanas, ela representa outra adaptação da fórmula criada na Califórnia.

Phantom Manor

Quando a Disney abriu seu parque europeu em 1992, decidiu ir além de simplesmente reproduzir a atração original.

A Phantom Manor, na Disneyland Paris, ganhou uma história própria e foi integrada à mitologia da Frontierland.

A mansão está ligada à família Ravenswood e à cidade fictícia de Thunder Mesa, compartilhando o mesmo universo narrativo de atrações como a Big Thunder Mountain.

O resultado é uma versão mais sombria, melancólica e narrativa do conceito da casa assombrada.

Mystic Manor

Já em Hong Kong Disneyland, os Imagineers tomaram um caminho completamente diferente.

A Mystic Manor, inaugurada em 2013, não reproduz a história de uma mansão habitada pelos 999 fantasmas.

A atração acompanha Lord Henry Mystic e seu curioso macaquinho Albert.

Tudo começa quando Albert abre uma caixa de música e libera uma energia mística capaz de fazer os artefatos da coleção de Lord Mystic ganharem vida.

Além da história própria, a atração utiliza veículos sem trilhos visíveis para conduzir os visitantes pelos diferentes ambientes da mansão.

Uma casa vazia que virou parte da história da Disney

Entre a conclusão de sua fachada e a chegada dos primeiros visitantes, a Haunted Mansion passou anos esperando que os Imagineers descobrissem exatamente que tipo de atração deveria existir atrás de suas portas.

A resposta acabou surgindo da combinação entre diferentes talentos: arquitetura, narrativa, música, ilusões, humor, tecnologia e uma quantidade considerável de fantasmas.

Mais de meio século depois de sua inauguração, a mansão original continua recebendo visitantes na Califórnia e seu conceito ajudou a inspirar atrações completamente diferentes em outros cantos do mundo.

Nada mal para uma casa que passou tantos anos esperando seus moradores.

E para você, mortal tolo: qual é o fantasma, personagem ou cena favorita da Haunted Mansion? Tem coragem de se tornar o milésimo morador da casa? Conte nos comentários e compartilhe suas memórias!